Mediação Escolar
A
mediação surge no cenário brasileiro em diversos âmbitos, no judicial, no
escolar, no empresarial e, até no direito ambiental. Pois a limitada capacidade
das Cortes de Justiça em proporcionar justas e tempestivas respostas diante dos
inúmeros impasses e conflitos verificados no meio social é um impulsionante
fator na busca de composição eficiente para os problemas tão comezinhos na
sociedade contemporânea.
Não basta a estrutura judicial deficitária
diante do grande boom de demandas judiciais e, ainda, os graves problemas
trazidos pela tardança e falta de efetiva e célere prestação jurisdicional.
demais,
ocorre o reiterado descumprimento de decisões judiciais que gera fracasso na
tão sonha pacificação social, razão porque as vias diferenciadas se apresentam como
novas opções para resolução de disputas, com especial destaque para os meios
consensuais.
Em
nosso país, a mediação se envolve diretamente com as temáticas de direitos
humanos, cidadania e inclusão, e tais temas estão, por sua vez, umbilicalmente
relacionados com a escola, educação e aprendizagem.
A mediação se revela como sendo forma
alternativa para resolver conflitos prevista na Lei de Mediação, onde se
disciplina uma espécie de negociação entre as partes para chegarem a um acordo.
Quem
conduz essa negociação um terceiro, alheio à relação, o profissional
responsável por essa função é chamado de mediador e, tem o objetivo de
incentivar o diálogo entre as partes.
As principais vantagens do método, podemos citar:
Resolução
do conflito de forma consensual; a solução contempla o interesse de ambas as
partes, maior rapidez; maior economia e menos desgaste entre os envolvidos,
etc.
A
mediação escolar é método que visa a pacificação em instituições de ensino, ou
seja, todo conflito que surge dentro do ambiente escolar recebe a atenção de
algum profissional ou aluno que atue como mediador.
A
solução sempre se pauta no respeito e no diálogo e, passa necessariamente pelas
partes envolvidas que vão conversar, refletir e chegar ao consenso que melhor
atenda aos seus interesses.
É
importante fazer uma leitura comportamental e entender as diferenças entre os
envolvidos eliminando eventual ruido na comunicação bem como alguma falha na
interpretação.
Importante
ressaltar que as técnicas que envolvem a mediação na resolução de conflitos se
relacionam com a cultura de paz, pois ambas suscitam a convivência respeitosa
entre os indivíduos, essa correlação prospera maior sensibilidade e consciência
de atitude e ações no universo escolar.
A
ferramenta mediação de conflitos traz novas formas para disseminar o diálogo e
a pacificação social. Segundo Fernandes (2017), "a mediação se caracteriza
como método eficaz na concretização da harmonia social por meio da solução
pacífica das controvérsias, atendendo assim, aos valores que norteiam a
Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 [...] o indivíduo tem a
possibilidade de crescer, se desenvolver ou empreender por meio de seu trabalho
e livre iniciativa".
Existem
muitos estudos sobre no Brasil e no exterior que focam a atenção as violências
no ambiente escolar. Pimenta e Incrocci (2018) pontuam que "o tema da
mediação no interior da escola está relacionado à violência urbana,
reverberadas em manifestações de violência na escola.
Sabe-se
que o conceito de violência abrange dimensões políticas, religiosas, de caráter
institucional e econômico".
A
associação entre escola e realidade social é que se vê justificada às questões
relativas aos diversos processos de intervenção da violência, uma vez que, o
meio social exerce fortes influências na formação das pessoas, principalmente
nos diversos contextos em crianças e adolescentes estão inseridos.
Entendemos
que mesmo com ouso de uma prática pedagógica ajustada e a busca da prevenção
dos conflitos, o professor se verá confrontado com atos de
indisciplinas/violências não previstas, nas quais ele deverá intervir com
intuito de administrar tais situações difíceis.
Quando
cogitamos sobre conflito, podemos dizer que o conflito é inerente ao ser
humano, por isso, entender de onde ele vem é, de fato, a melhor maneira de
conseguir mediá-lo, de acordo Marshal (2019, p.166) "Se enxergarmos os
outros como seres humanos, podemos os conectar com quem quer que seja. ",
isso demonstra como a prática do diálogo e da escuta ativa, podem trazer
melhorias no aprendizado e fortalecimento nos vínculos socioemocionais.
O surgimento da mediação de conflitos escolares, segundo Heredia surgiu há cerca de trinta anos por estudiosos da resolução de conflitos, por grupos comprometidos com a não violência, como a igreja Quaker; os oponentes da guerra nuclear; membros do Educators for Social Responsability (ESR) e advogados (Heredia, 1999, p. 35).
Destaca
o autor que no início dos anos 70, nos Estados Unidos, foram implementados os
primeiros centros de justiça de vizinhos, conhecidos como Programa de Mediação
Comunitária, oferecendo um espaço onde os cidadãos pudessem se reunir e
resolver seus conflitos. Esses centros obtiveram um grande êxito e
posteriormente se estenderam pelos Estados Unidos.
O
sucesso das atividades do programa de mediação comunitária foi levado para a
escola, na década de 80, com o objetivo de ensinar os estudantes a mediarem os
conflitos com os seus colegas, trazendo o diálogo como valor principal.
Assinalam
os estudos de Abramovay e Rua (2002) que no Brasil ainda são poucas as
experiências em mediação escolar, entretanto, os estudos desenvolvidos já
apontam como um meio hábil para a prevenção da violência na escola.
Para
Sales e Alencar (2007, p.145) quando a mediação é realizada nas instituições de
ensino, denomina-se mediação escolar. O embasamento deste procedimento é o
mesmo, diálogo e solidariedade humana. Para as autoras, a mediação escolar
possibilita, dentro da escola, a educação em valores, uma educação para a paz,
e uma visão inovadora acerca dos conflitos.
Observam
também os autores que as competências são didaticamente divididas em
cognitivas, perspectivas, emocionais, comunicativas, de pensamento criativo, de
negociação e de pensamento crítico. Entretanto, tais competências não exaurem o
rol de conhecimentos, habilidades e atitudes que o mediador desenvolverá ao
longo de sua experiência (Badini; Borges, 2015, p. 247).
A
mediação escolar visa a resolver os principais conflitos dentro das escolas,
por meio de ações educativas e preventivas, evitando que as ocorrências se
tornem mais graves e precisem de intervenções jurídicas. Sendo ela um processo
voluntário, consensual e não adversária de resolução de conflitos, no qual as
partes elegem um terceiro imparcial responsável por facilitar o diálogo
pacificador, sem interferir no mérito das decisões (Netto, 2012, p. 8).
A
mediação é uma oportunidade para as partes resolverem seus próprios conflitos,
sem delegá-los a uma terceira pessoa para impor uma decisão. É um meio
consensual flexível que envolve a cooperação dos participantes, auxiliado por
um mediador, independente e imparcial.
A mediação seria uma proposta transformadora do conflito porque não busca a sua decisão por um terceiro, mas, sim, a sua resolução pelas próprias partes, que recebem auxílio do mediador para administrá-lo. A mediação não se preocupa com o litígio, ou seja, com a verdade formal contida nos autos.
Tampouco,
tem como única finalidade a obtenção de um acordo. Mas visa, principalmente,
ajudar as partes a redimensionar o conflito, aqui entendido como conjunto de
condições psicológicas, culturais e sociais que determinaram um choque de
atitudes e interesses no relacionamento das pessoas envolvidas (Warat, 2001).
A
mediação utilizada no contexto escolar tem por escopo o desenvolvimento de um
ambiente que possibilite aos alunos o desejo e a prática da comunicação aberta,
do diálogo, de escutar o outro e conviver com o outro e se colocar no lugar do
outro.
A
prática da mediação busca o incentivo da compreensão da natureza dos sentidos,
capacidades e possibilidades humanas, a contribuição para que os alunos
aprendam a compartilhar suas emoções e conhecer suas qualidades e dificuldades,
a oportunidade de fortalecer a autoconfiança em suas habilidades, e a
capacidade do pensamento criativo sobre os problemas, de modo a plantar a
semente da prevenção e da resolução pacífica dos conflitos (Schabbel, 2002, p.
24).
Entrelaçando
esses pensamentos a alguns conceitos sobre a violência no contexto escolar,
trazemos o conceito da palavra violência que deriva do latim, violentia,
pode ser genericamente definida como qualquer constrangimento físico ou moral
exercido sobre alguém para obrigá-lo a submeter-se à vontade de outrem, ou
melhor, é qualquer ação que tenha por objetivo causar dor ou sofrimento físico.
O
conceito de violência é ambíguo, complexo, implica vários elementos e posições
teóricas e variadas maneiras de solução ou eliminação. Diversos autores, a luz
de diferentes áreas do conhecimento, definem a violência. No entanto, devido à
grande variedade e abrangência de suas manifestações, a violência enquanto
conceito não permite o consenso.
Para
Organização Mundial da Saúde (OMS, 2002, p. 12), a violência foi definida como
o "uso intencional da força ou poder em uma forma de ameaça ou
efetivamente, contra si mesmo, outra pessoa ou grupo ou comunidade, que
ocasiona ou tem grandes probabilidades de ocasionar lesão, morte, dano
psíquico, alterações do desenvolvimento ou privações".
Existem
hoje no Brasil alguns princípios que configuram o conjunto de Diretos das
Crianças e Adolescentes que visam garantir seu desenvolvimento saudável, seguro
e integral, alguns deles estão explicitados no Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) – Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.
Art.
4º - É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder
público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos
referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à
convivência familiar e comunitária.
O
Estatuto, no seu Art. 5º, ainda garante que crianças e adolescentes devem ser
protegidos de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência,
crueldade e opressão (que podem coexistir), portanto a violência contra criança
e adolescente consiste numa violação de direitos.
O
filosofo francês Yves Michaud (1986), conceitua a violência quando, numa
situação de interação, um ou vários atores agem de forma direta ou indireta,
maciça ou esparsa, causando danos a uma ou várias pessoas em graus variáveis,
seja em sua integridade física, seja em sua integridade moral, em suas posses,
ou em suas participações simbólicas e culturais (Michaud, 1986, p. 10-11).
Segundo
o pensamento da professora Marilena Chauí (2005, p. 342), a violência é
"um ato de brutalidade, sevícia e abuso físico e/ou psíquico contra alguém
e caracteriza relações intersubjetivas e sociais definidas pela opressão e
intimidação, pelo medo e pelo terror".
A
violência no meio escolar muda de acordo com o olhar pelo qual esse meio é
abordado, dessa forma, levou alguns especialistas no assunto a buscarem uma
classificação dos tipos para facilitar sua compreensão e atuação sobre a
problemática.
Para o
sociólogo Charlot (2002), a violência escolar é correlata ao estado de nossa
sociedade e de sua escola, às políticas e às práticas dos estabelecimentos
escolares e de seus funcionários, às competências cognitivas e relacionais
destes, de adultos e de estudantes, que vivem e trabalham na escola.
A
violência pode ser considerada, tanto na educação quanto no conjunto da
sociedade, como uma manifestação que substitui a palavra, já que a violência
afirma quando a palavra não é possível, constituindo-se assim a negação da
condição humana.
Estudos nos mostram que os tipos de violência mais praticados no universo escolar são: violência simbólica, bullying, violência física, violência verbal. Por violência simbólica, expõe:
nem
sempre a violência se apresenta como um ato, como uma relação, como um fato,
que possua estrutura facilmente identificável. O contrário, talvez, fosse mais
próximo da realidade. Ou seja, o ato violento se insinua, frequentemente, como
um ato natural, cuja essência passa despercebida. Perceber um ato como violenta
demanda do homem um esforço para superar sua aparência de ato rotineiro,
natural e como que inscrito na ordem das coisas (Odalia, 2004, p. 22-23).
Compreende
Charlot, citado por Abramovay e Rua, que a violência simbólica ou institucional
se dá pela falta de sentido de permanecer na escola por tantos anos; pelo
ensino como um desprazer, que obriga o jovem a aprender matérias e conteúdos
alheios aos seus interesses; as imposições de uma sociedade que não sabe
acolher os seus jovens no mercado de trabalho, bem como, pela violência das
relações de poder entre professores e alunos (Charlot, apud Abramovay; Rua,
2002, p. 69).
Outro tipo de violência que ocorre com frequência nas escolas se trata do bullying e que traz consequências sérias, tanto para vítimas quanto para agressores.
Conceitua Fante: "bullying é um conjunto de atitudes agressivas, intencionais e repetitivas que ocorrem sem motivação evidente, adotado por um ou mais alunos contra outro (s), causando dor, angustia e sofrimento. Insultos, intimidações, apelidos cruéis, gozações que magoam profundamente, acusações injustas, atuação de grupos que hostilizam, ridicularizam e infernizam a vida de outros alunos levando-os à exclusão, além de danos físicos, morais e materiais, são algumas das manifestações do "comportamento bullying" (Fante, 2005).
Já a
violência física pode ser caracterizada pelo uso da força ou atos físicos
praticados entre membros da escola, incluindo os alunos. A violência verbal
ocorre por meio de atos agressivos expostos visivelmente nas situações de
opressão, humilhação, xingamentos, palavras de baixo calão, entre membros da
escola, dentro e fora das escolas.
Evidencia
Fante (2005) que a violência escolar nas últimas décadas adquiriu crescente
dimensão em todas as sociedades. O que a torna questão preocupante é a grande
incidência de sua manifestação em todos os níveis de escolaridade.
Percebe-se
que, na televisão e nos telejornais, estão estampados todos os dias vários
casos de violência. As redes sociais evidenciam constantemente práticas de
violência no ambiente escolar. Tais práticas conflituosas vêm sendo objeto de
preocupação da sociedade brasileira, assim como de toda comunidade escolar.
No
entanto, o comportamento agressivo decorrência de múltiplos fatores, tanto
externo como interno à escola, sedo caracterizado por interações sociais,
familiares e pelos padrões de comportamento revelados nas relações.
Nesse
contexto, faz-se necessário buscar meios e caminhos para prevenir e reverter os
conflitos vivenciados no espaço escolar, adotando e ou resgatando valores
humanos, que visam uma convivência pacífica, honesta e justa entre as pessoas.
Este estudo consiste em uma pesquisa qualitativa de natureza bibliográfica, utilizando como método dialético em uma abordagem etnográfica (Marconi; Lakatos, 2005), que busca aporte teórico em autores como Abramovay (2002), Heredia (1999), Marshal (2019), Charlot (2002), Fante (2005) e Fernandes (2005), dentre outros estudiosos, além da BNCC (2018), têm disseminado importantes contribuições em pesquisas na área da mediação de conflitos e violências escolares, buscando inovações no meio da aprendizagem inovadoras.
As
reflexões de Fante (2005) nos dizem que para obter êxito na diminuição da
violência nas escolas é indispensável que se desenvolvam alguns projetos como
implementação de trabalhos de conscientização com os estudantes, estimulando a
educação dos sentimentos e a valorização das relações interpessoais.
Contudo,
os estudos de Dias (2012) evidenciam que não existem soluções simples para
resolver a questão da violência entre os pares no contexto escolar, visto que
nenhuma medida isoladamente seria eficaz.
Os
estudos de Fante (2005) em escolas brasileiras demonstraram que os estudantes
acreditam que reproduzem na escola a violência vivida em casa, os professores
corroboram essa opinião, afirmando que o contexto familiar e também o contexto
social influenciam no comportamento dos alunos.
Os
estudos de Dias (2012) argumentam que a ausência de supervisão dos adultos no
cotidiano de crianças e adolescentes, são fatores que contribuem para o
comportamento agressivo ou submisso das crianças; além disso, a
não-participação da vida escolar e afetiva das crianças os tornam
emocionalmente distantes e desinteressados e não percebem quando as crianças
são vítimas ou agressores no contexto escolar.
Olweus
(1993), citado por Dias (2013), demonstrou em seus estudos na Noruega, que
vítimas de violência, em especial do processo de bullying, não encontravam nos
professores e equipe escolar apoio efetivo para combater a situação reforçando
o silencio de quem sofria.
Nesse
contexto, evidencia-se que esses dados são importantes e significativos para
que revejam suas ações no sentido de prevenir e combater a violência,
promovendo a proximidade entre alunos e professores, proporcionando a
conscientização sobre o tema e capacitando adequadamente a equipe gestora para
intervir quando necessário.
Buscamos
discutir algumas reflexões sobre a mediação de conflitos escolares, como um dos
mecanismos de resolução de conflitos, posto que, atualmente a violência, tem
sido um dos temas mais discutidos no universo escolar.
Dessa
forma, apresentamos a ferramenta da Mediação de Conflitos Escolares como um dos
caminhos de caráter pedagógico para se melhorar a convivência no ambiente e na
comunidade escolar, promovendo o diálogo, a prevenção das violências, a
resolução de conflitos dentro de uma instituição escolar ou acadêmica, contribuindo
para a construção de uma sociedade provedora d cultura de paz, constituída num
contexto de valorização do diálogo, dos valores humanos e da transformação dos
conflitos negativos em fortalecimento do indivíduo.
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